«Tu nunca podes cometer o mesmo erro duas vezes. A segunda vez que tu o fizeres, ele não é mais um erro, é uma escolha.»
Perdeu-se entre as danças, entre os rodopios. Aguentava a dor nas pontas dos pés, o desespero entre o seu respirar, leve, cansado, o seu corpo dorido das lutas, transpirado de tantas forças desvanecidas. Aquela nostalgia não lhe fazia bem, mas não sabia parar com ela, não existiam feitiços que a fizesses desaparecer, a dança era o seu refúgio, ela dançava o tango com a dor, a salsa com a saudade, com a perdição, tentava lhes vencer num mundo sem fim, numa loucura que lhe controla toda a alma. Farta de palavras que voavam, que mentiam, de sonhos que a esfaqueavam, ela era guerreira, do seu destino, da sua fé, capturada pelos seus tão aliados, enganada pelos sorrisos, pelos gestos que julgava definitivos, prisioneira do terror, das alucinações de que aquele ritmo lhe levava, dançando com a sua sombra, com o seu corpo iluminado pelos últimos raios de sol que lhe tocavam delicadamente no seu ponto mais íntimo. Farta de tanto padecimento, de tantas memórias que se tentavam apoderar dela mais uma vez, desistia quando nada mais podia fazer, retirava os sapatos gastos de tantos passos dados em vão, de tantas escolhas, os seus companheiros de mais um dia que aparentou não ter fim. Foi melhor assim. Determinada tornou se surda ao som do vento, às vozes que lhe tentavam penetrar os ouvidos, tornou se muda sempre que uma das suas peças se desmanchava e queria gritar de desespero, deixou de amar, com medo de não ser amada, deixou de sonhar com medo da queda.
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