«Se ao menos conseguíssemos enxergar a infinita cadeia de consequências que resulta das nossas pequenas decisões. Mas só percebemos tarde demais, quando percebemos já é inútil.»
A minha mãe diz que tenho vida de santa, não que seja uma, segundo ela não faço nada em tempo algum. Acho que este tema tem se repetido bastante ao longo deste ano letivo, para não dizer, desde que nasci. O problema é que antes até o aceitava, agora custa-me um pouco. Acordo todos os dias antes das oito, tomo banho, visto-me e vou para a escola, tudo bem, nada demais até agora. Durante quatro horas e meia oiço e faço trabalhos sobre temas que vão aumentar a minha cultura, a maior parte deles, certamente, nunca mais ouvirei falar, nem me vão interessar para nada, como os professores dizem, são apenas "curiosidades", apesar de estar num patamar da vida onde não me interessa obter respostas a perguntas que jamais irei colocar. Tudo bem, hora de almoço ! Vou para casa... ups, tenho que ir a pé, não que seja fã do exercício físico, mas também tenho tudo menos idade para um carrinho, para não falar do preço da gasolina, é que não sei se sou a única a que não pagam para ir à escola. Chego a casa, hora de fazer o almoço, em seguida a loiça tem de estar na máquina, o quarto arrumado e ainda, diz a minha mãe, que não me dá trabalho nenhum pôr a roupa a secar. "Temos que distribuir tarefas", diz ela. Uma hora passou, fazer a mochila, deixar tudo arrumado e ir novamente para a escola, Mais três horas e começa-se a sentir o cansaço, pior é nos dias de educação física, que a vontade é ir tomar banho e dormir durante um mês, enquanto me esqueço das dores insuportáveis por todo o corpo. Hora de ir para casa ver televisão... mentira ! Hora de ir para casa, estudar, meus caros, porque vida de estudante é mesmo isso e admito que me dá uma certa raiva sempre que oiço alguém a que este é o meu trabalho. Digo já, que foi um emprego ao qual não me candidatei ! Sim, o meu dia não acaba as seis da tarde como os meus pais pensam, bem pelo contrário, acaba quando arrumo os livrinhos e vou dormir um sesta de oito horas, que para surpresa de muitos é o único descanso nas vinte e quatro horas que um dia dispõe. Para não falar que estou em época de exames e o meu objetivo é ser pediatra. Como é óbvio, não ando na escola a passear os livros, a candidatar-me a um emprego de trolha, não que tenha algo contra isso, tal como os outros empregos é bem honesto, apenas não me contento com migalhas, quero algo que goste e prometo ser a melhor no que faço. Mas querida mãe, não voltes a dizer que não faço nada, porque no meio disto tudo ainda tenho as minhas crises existências de adolescente. Cada caso é um caso e, mais vale contentares-te com o que sou e com o que ajudo, já viste se tivesses uma filha que não se importasse com nada ? Pois é, não sou só eu que não dou valor ao que tenho ! Beijinhos aqui da preguiçosa.

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