«Dói. Se me perguntarem o que aconteceu, só saberei responder isto: dói. Se me perguntarem onde é que é a dor, ainda assim só responderei: dói. Aquela vontade de cortar a garganta para não poder gritar. Aquela vontade de arrancar os olhos só para não poder ver. Aquela vontade de esmagar o coração só para não poder sentir. Mesmo com todas essas coisas incapacitadas ainda assim doeria. Porque não está na garganta, nos olhos, no coração. Está em toda parte (…)»
Poderia explicar toda esta falta de vontade, esta sensação de desprezo que remexe por entre as vozes insaciadas de compaixão que vais largando. Foi verdadeiro ? Foi. Cai a dúvida se voltara a ser. Eventualmente, a culpada serei eu se nada der certo. Eu que renunciei de tudo o que construímos, que larguei o mundo por causa de uma pedra que encontrei na calçada. Fui eu que perdi, digas o que disseres, fui eu que dei por mim entre as esquinas e os becos sem saída e tive de enfrenta-los sozinha. E mesmo feita idiota, em cada momento eu desejei voltar, voltar para o que ? Para os braços que me deixaram partir ? Ou para o som suave que diz que nunca me vai deixar ? Eu acreditei. Acreditei nas promessas. E em tantos dias esqueci-me do quanto sou exigente, do quanto não posso querer tudo para mim, eu nunca te soube partilhar e foi por isso que te perdi, porque na altura achei que a melhor forma de parar com os ciúmes possessivos, com aquela insegurança tremenda era virar-te as costas e deixar que seguisses sem mim. Mas acredita que custou, que de certo modo, ainda custa. Enfrentar-te todos os dias e imaginar o que podia ter sido, mas que não chegou a ser (...)

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