«Aprenda: Não gaste belas palavras com quem não vai entendê-las.»
Se um minuto apagasse os outros mil quatrocentos e quarenta...
Se me visses hoje irias odiar-me, tanto ou mais do que alguma vez me odiei. Tornei-me nessa falta de compaixão que sempre falavas com tanta repugnância, nesse tipo de garotas que anseia por uma vida, mas não sabe viver o presente. Tornei-me em tudo isso, nessa falta de vontade constrangedora que tanto te arrepiava a pele, nesse poço de sentimentos sem fim que contavas ser tão imprudente e avassalador. Tornei-me no reflexo de todos os teus receios, num rascunho da vida que ambicionavas para mim e lamento talvez por tudo isso, por todas as minhas escolhas me levarem a uma solidão tão monótona que jamais alguém escutará os gritos por entre todo o meu silêncio ou irá apreciar a espontaneidade do meu sorriso por entre todas as entre linhas dos meus atos. Lamento por me ter fechado dentro de casa, dentro da vida, dentro do peito, por não conseguir soltar uma palavra mais feroz sem me sentir culpada de todo o sofrimento que te causarei se algum dia descobrires quem sou de verdade. Lamento, em parte, culpar-te disso também. Culpar-te do espaço vazio no sofá, da quietude que invade os corredores, das luzes apagadas, porque se me visses agora, se me visses de verdade, por entre as conversas forçadas e risos mudos, também te irias culpar, tanto ou mais do que alguma vez te culpei. Eu queria um domingo preenchido, uma sexta sem planos, um sábado por ai, se não fosse pedir demasiado esperava um pouco de sinceridade e uma semana tranquila, mas não se pode pedir isso de alguém que não pretende preencher os nossos espaços vazios, de uma pessoa que sabemos que nos ama, mas que jamais o demonstra. Não podemos esperar que alguém nos segure na vida se nem consegue nos segurar no resto. Se um minuto apagasse os outros mil quatrocentos e quarenta eu perdoava.

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